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Feriado nacional e a preguiça parece ser cheia de tentáculos - que envolvem a gente e nos prendem à cama, ao sofá, num "não-querer-fazer" que abarca qualquer coisa...
Só o coração da gente parece estar ativo, aflito, pensando em que será que vai acontecer daqui pra frente.
Tudo porque, hoje - dia da Padroeira -, ele olha para o céu e tenta enxergar o menino que se foi ontem e que hoje já deve estar tocando jazz ao lado de Deus.
Fernando Sabino deixou marcas profundas na vida da gente - seja porque era impossível deixar de ler "Encontro Marcado" (se a gente não quisesse, era obrigado, por causa da professora de Português e Literatura Brasileira, sob o forte e irrefutável argumento de que não se podia deixar de ler Sabino).
E depois de algumas páginas, a gente descobria que lia com prazer e, de repente, aprendia a olhar com outros olhos aquelas histórias todas que o Sabino escrevia e pensava que aquele menino podia ser a gente.
Menino escoteiro, que fazia de seu bom humor o seu canivete de mil utilidades - coisa que, certamente, fazia Batman e seu cinto morrerem de inveja...
Hoje, no dia da Padroeira, eu me pego pensando que Cidinha (desculpe, mas sou "assim" com ela, com a Grande Mãe...) deve estar se divertindo com estripulias e música de muito boa qualidade.
Afinal, no seu dia, até a Padroeira merece um descanso, reverência, preces e... Bom humor!
Com tudo o que anda acontecendo por aqui, acho inevitável a Padroeira estar sentindo cansaço e um quê de desalento. Afinal, por mais que faça, tudo parece dar em nada.
A violência campeia solta, desenfreada; o medo fez morada no "País do Terceiro Milênio" e a fome desgraça o "Celeiro do Mundo".
Não temos mais a noção de quem somos e sonhamos com quem possa nos trazer esta identidade de volta.
Estamos americanizados e nos irritamos quando Tio Sam nos aponta o dedo em riste. Estamos desfigurados e nos assustamos, quando os olhos do mundo se voltam para nós, porque descobrimos (sem a ajuda deles) como enriquecer urânio.
Estamos maltratados, maltrapilhos, desalentados...
E o menino que nos alegrava resolveu se juntar aos outros amigos mineiros e mineiramente se foi pras bandas lá de cima - talvez já pensando em dar uma piscadela para a Cidinha, enquanto se ia à procura de Chiquinho.
Afinal, ele, desde menino, dizia que iria se tornar amigo de Francisco (aquele, de Assis!), tão amigo, tão íntimo, que Francisco certamente o chamaria de Nandinho e ele, por sua vez, poderia chamá-lo apenas de Chiquinho...
Chiquinho, Cidinha, Nandinho...
A eles certamente se juntaram Ottinho e a tropa mineira que havia se mandado antes para as bandas lá de cima. É certo que, sempre que um companheiro volta a se encontrar com eles, a turma faz festa e senta para contar causos e mais causos.
Quem vai se deliciar é, certamente, Cidinha - e Chiquinho, é claro!
Vão ter histórias mil para ouvir de bom humor, com um sorriso permanentemente desenhado nos lábios e um olhar renovado de esperança.
Hoje, no dia da Padroeira, fico me perguntando se devo pensar em Cidinha, em Chiquinho ou em Nandinho...
Se devo pensar no nosso paisinho de todos os deuses - agora ainda mais tristinho... -, ou se penso em nosso mundinho tão combalido e nos malucos que andam à solta por ele, fazendo-o sofrer e castigando quem só quer viver em paz...
Talvez seja hora de eu me ajoelhar e olhar para cima, pensando na Cidinha e pedindo que ela, como mãezinha carinhosa, tenha mais um pouco de paciência e dê mais uma grande força, pra que a gente resista a tudo isso e possa - um dia -, sorrir como aquele menino que se mandou para o andar de cima, para jogar conversa fora com o Chiquinho...
Acho que é uma boa saída.
E olhar, depois, para o chão e imaginar uma lápide bonita, azul como o céu mais limpo e brilhante como a alma mais bendita, onde se possa ler, com letras infantis e angelicais, o epitáfio que o Nandinho escreveu e pediu que lhe pusessem em cima:
"Aqui jaz Fernando Sabino,
Que nasceu homem
E morreu menino"
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