Coluna da Sal - Vlados e Clarices






Quem diria!... Lá se vão 25 anos... E lá se foi Vlado...

Vinte e cinco anos atrás, um jornalista (mais um) era sacrificado, em meio à luta contra a ditadura. Quem se lembra disso?

Você, muito provavelmente, só ouviu falar em Vladimir Herzog na escola, quando estudou a História recente do país e soube que um dia, nos porões do DOI-CODI, um jornalista foi morto e sua morte oficializada como suicídio.

Depois dele, um operário: Manoel Fiel Filho. E o mesmo procedimento. E o general que estava no Poder, que governava a Nação, decidiu exonerar o comandante do Exército - que mandava também na polícia política - e decretou o fim de uma era, preparando o início de uma outra, que todos chamaram de anistia.

E você também deve ter ficado sabendo, na escola, que o sucessor desse general - um outro general - decretou a tal da anistia "ampla, geral e irrestrita" e garantiu, aos brados: "prendo e arrebento quem for contra a anistia"...

Pois é... Isso tudo é história recente, fresquinha na memória de muita gente...

Você, certamente, deve saber a letra de "O Bêbado e a Equilibrista". Portanto, lembra daquele verso que diz "choram Marias e Clarices no solo do Brasil"...

Pois é...

O jornalista era Vladimir Herzog, assassinado pelos homens da repressão política da ditadura militar brasileira. Manoel Fiel Filho, um operário que teve o mesmo fim. Clarice, a Clarice da letra da música, é a mulher de Herzog, hoje uma publicitária.

Ela teve coragem de entrar na Justiça e acusar a ditadura pela morte do marido. Encarou a repressão e ganhou...

Mas quantas Marias, quantas Clarices, quantos Herzogs, quantos Manés ficaram por aí, à margem da História, esquecidos nos porões, enterrados em valas comuns, como indigentes, apenas porque sonharam com liberdade?

Quantas foram as vítimas da tal "anistia ampla, geral e irrestrita", que sepultou incontáveis crimes contra a vida e a liberdade?

Pois é...

Somos todos meio Vlado, meio Clarice... Meio Mané...

Pois é...

"Caía a tarde feito um viaduto / e um bêbado trajando luto / me lembrou Carlitos / A lua / tal qual a dona de um bordéu / pedia a cada estrela fria / um brilho de aluguel / E nuvens / lá no mata-borrão do céu / chupavam manchas torturadas / que sufoco! / Louco, o bêbado com o chapéu coco / fazia irreverências mil / pra noite do Brasil..."