E ele continua aí...

Quando todo mundo esperava que ele fosse fazer um pouco menos de vítimas, eis que ele se mostra ainda mais assustador, contaminando muito mais gente do que imaginado...

Você já deve ter adivinhado do que estou falando... É! Ele! Sempre ele! O monstro do século, a praga do 3º milênio: o HIV.

Sei, também, que você já deve estar se perguntando se não me canso de tocar neste assunto, se não tenho outras preocupações, se não vejo as coisas boas da vida e tudo o mais. Vejo sim, tenho outros assuntos, sim; tenho outras tantas preocupações, sim...

Mas quem já esteve cara-a-cara com ele, entende o que sinto... É o desespero da impotência. Impotência diante de um inimigo que corrói, que destrói aos poucos e vai fazendo definhar sonhos, esperanças, vida...

Quem já teve o desprazer de encarar o HIV (em si ou em alguém conhecido, querido), entende o que falo... Sabe o que é essa impotência total, absoluta, irrevogável... Sabe o que é não ter a mínima chance de reagir.

Quem já teve o desprazer de encarar o maldito, sabe o que é doação, o que é sofrimento... Sabe, literalmente, o que é ver a sombra da morte nos olhos de alguém e não poder afastá-la nem ao menos com um gesto de carinho.

Sabe o que é buscar os menores detalhes, tentando adiar o inevitável, tentando amenizar uma dor que não se sente, mas que se adivinha. Sabe o que é construir gestos de esperança em meio ao desespero e mergulhar num poço de ilusões que tem apenas alguns centímetros de profundidade...

Sabe o que é tocar, sem poder ajudar. Sabe o que é tentar o sonho, quando o fantasma mais cruel faz sua ronda...

Sabe o que é tentar lutar, tentar dar forças, quando a luta e as forças se extinguem rapidamente, diante do inexorável, diante do que não pode ser tocado, mas que se faz presente, intermitente, destruidor...

Sabe o que é ver esvair-se a vida, de maneira lenta, embaçando o brilho dos olhos e definhando o sorriso...

São 36 milhões de pessoas acuadas, estigmatizadas, destruídas... 5,3 milhões contaminadas só neste ano... E isso, em números relativos. Na verdade, esse número pode ser multiplicado por 3, talvez 5. Para cada caso notificado, outros tantos estão por aí, sem que saibamos.

São anônimos, alijados do sistema de saúde já tão precário. São tantos, que nem podemos imaginar quantos são... Todos numa luta insana, inglória, contra um monstro mutante, cuja face só podemos ver, de verdade, na hora final...

Quem já viu, sabe do que estou falando...