"São Paulo - Morreu hoje em São Paulo, no hospital Santa Helena, a escritora Cassandra Rios, autora de 'A Tara' e 'Tessa, a Gata', entre outros. Nascida em 1932 com o nome de Odete Rios, ela foi uma das autoras mais vendidas dos anos 60 e 70 - e também das mais perseguidas pela censura. Estreou com 'Volúpia do Pecado' (1948) e foi um sucesso popular com incontáveis livros, ao lado da também considerada pornógrafa Adelaide Carraro (autora de 'Adelaide no Mundo com Sílvio Santos').

"Chegou a vender quase 300 mil exemplares de seus livros por ano, números que só seriam rivalizados por Paulo Coelho. Misturava em suas obras homossexualismo feminino, cultos umbandistas, negócios e política, combinação que não respeitava o 'bom gosto' que o regime militar desejava preservar. Com a abertura, um de seus livros, 'A Paranóica', foi adaptado para o cinema, com título de 'Ariella'. Ariella (Nicole Puzzi) era uma menina rejeitada que vivia numa mansão e que descobre que seu tio fingia ser seu pai para ficar com sua fortuna. Para se vingar, passa a usar o próprio corpo, desintegrando a família.

"Cassandra queixava-se de confundirem suas obras com sua vida. Numa entrevista recente à revista TPM, afirmou: 'O que mais me incomodou foi me encararem como personagem de livro. Então não tenho capacidade para ser escritora?!'. Nenhuma de suas obras está nas livrarias, mas são comuns em sebos e em saldões. Cassandra será enterrada amanhã, no cemitério de Santo Amaro, às 8h30." (Agência Estado)

Mais uma que se vai... Conheci Cassandra na década de 80, em Ribeirão Preto, quando tentava eleger-se deputada estadual.

Era uma mulher grandalhona, dada a rompantes, mas tinha um lado terno. Talvez justamente esse que aflorava quando se queixava da confusão que faziam entre suas obras e sua vida.

Já estava meio esquecida e tinha a esperança de, elegendo-se deputada, reerguer sua carreira literária. Era um grande sonho, em duas partes. Não conseguiu sair do projeto. Não se elegeu e teve de arcar com os custos da campanha. Não sei como ficaram suas finanças depois disso. O certo é que nunca mais tive notícias dela.

Loira "tingida", corpulenta, dava a impressão de uma agressividade gratuita que fica sempre no "quase consumado". Havia momentos em que parecia prestes a explodir - em manifestação de raiva ou de choro.

Deixou-me a imagem de alguém sempre à beira do abismo...

Suas obras mostravam sempre personagens na mesma situação. Talvez por isso ela tenha sido tão confundida com suas personagens.

Agora, quando a notícia de sua morte é tão ínfima e tão sem explicações, a gente se pergunta o que teria sido feito da vida de Cassandra, ao longo dos últimos 20 anos...

Seu maior sonho - voltar a ser uma escritora best-seller, vendendo milhares de livros a cada edição - não se concretizou. Talvez sua época tivesse passado.

Se de bom gosto ou não, se boa escritora ou não, é outra história. O que ninguém pode negar é que, ao lado de Adelaide Carraro, ela foi uma forma de resistência ao regime militar e uma pioneira a desvendar o lixo que cerca a política brasileira.

E só isso já basta para escrever seu nome na história.