Antes de qualquer outra coisa, preste atenção à notícia divulgada pela Agência Estado:

"Já está circulando entre os bispos brasileiros o texto que servirá de base para a carta que a Igreja Católica divulgará em abril, por ocasião dos 500 anos de evangelização. O documento tem 18 páginas e em sua primeira reconhece erros em relação aos índios e aos negros. No entanto, o texto ignora tudo que se refere ao Santo Ofício da Inquisição - o tribunal eclesiástico instituído para investigar e punir crimes contra a fé católica, que funcionou em terras brasileiras durante 242 anos, entre 1579 e 1821. Nesse período a Inquisição portuguesa perseguiu ateus, protestantes, homossexuais, bígamos e judeus que viviam no Brasil.

"Ao ignorar a ação do Santo Ofício, o anteprojeto da carta fica aquém das manifestações do papa João Paulo II. Em mais de uma ocasião o pontífice já pediu perdão pelos métodos dos inquisidores, que chegavam a torturar, açoitar, enforcar e até queimar os acusados. Segundo estudiosos consultados, é uma omissão grave. ‘É lamentável’, disse a historiadora Anita Novinsky, professora da Universidade de São Paulo (USP), especialista em estudos sobre a presença dos judeus no Brasil.

"Segundo a professora, cerca de 1.500 judeus foram presos no Brasil e enviados para os tribunais da Inquisição portuguesa. Eram principalmente cristãos-novos, nome dado aos judeus que se convertiam ao catolicismo para escapar das perseguições. O número exato de perseguidos está sendo apurado por uma equipe de pesquisadores coordenada por Anita e será divulgado nos próximos meses, no livro Prisioneiros Brasileiros na Inquisição. ‘Podemos dizer que houve extermínio de judeus’, diz ela.

"O texto enviado aos bispos não é definitivo. Escrito por uma comissão formada por bispos e padres ligados à CNBB, será discutido e reescrito durante a próxima assembléia do episcopado em Porto Seguro, no fim de abril e início de maio. Segundo um de seus autores, o padre Manoel de Godoy, a ausência de referências à Inquisição não significa que ela foi esquecida. ‘Na verdade, é impossível abordar todas as questões num texto tão sucinto’, disse ele. ‘O documento final será ainda mais curto e tratará não apenas do passado, mas, principalmente, do futuro’. Diante das críticas, o padre admite a possibilidade de o texto referir-se à Inquisição: ‘Vamos enviar a sugestão aos bispos, cabendo a eles decidir’."

Depois de ler tudo isto, fiquei pensando... Somos mesmo o país da repressão! A cada pequeno intervalo, temos uma repressão sanguinária às nossas costas, fungando, ameaçando, castrando...

Primeiro, foi a Inquisição Portuguesa. Depois da Velha República, o Estado Novo de Getúlio. Depois de outro breve intervalo - incluindo aí Juscelino -, tivemos o golpe de 64... Agora, depois de praticamente três décadas de repressão, estamos vivendo mais um daqueles intervalos, mais uma pausa para respirar um pouco de ar democrático...

Só que, pelo visto, esses ares não arejam os claustros católicos... Sempre foi mais fácil apontar os erros alheios... Mas jogar para escanteio metade de nossa história oficial (afinal, foram 242 anos. Para 250 - que representam a metade dos 500 anos comemorados -, faltam apenas 8...), com todos os seus horrores, é muita cara de pau...

Desculpe, gente, mas não dá para resistir: cara-dura!!!!!