Quem viver verá... Era assim que, décadas atrás, os ditos "subversivos" tentavam se consolar, tentavam reavivar a esperança em tempos melhores, livres, democráticos. Em pleno regime militar, sonhar com liberdade de expressão, pensamento, manifestação e locomoção era mesmo utopia.

E não é que se conseguiu ao menos uma parte desse sonho?

Agora, no entanto, é preciso expulsar fantasmas de nossa História, para que tenhamos paz. A confirmação da existência da tal Operação Condor, que uniu as ditaduras sul-americanas no combate aos seus opositores, é líquida e certa. Já não há como negar o que foi feito, mas ainda é preciso detalhar o modo de ação e suas conseqüências.

As investigações, movidas em Brasil, Paraguai e Argentina, reavivam sofrimentos terríveis, que se espalharam por todas as fronteiras. A América do Sul ainda é um imenso vale de lágrimas. Tem gente chorando seus mortos, seus desaparecidos há muitos anos. Choro que não se acabou com eleições diretas... As mães da Praça de Maio continuam lá, em busca de seus filhos. No Paraguai, o quadro não é diferente. No Uruguai, também não. Na Argentina, também não. No Brasil, também não.

Há um imenso coração que sangra os crimes das ditaduras e clama por justiça. Talvez a hora dessa justiça tenha chegado - por mais que homens como Newton Cruz gritem que isso é vingança, retaliação.

Eu prefiro dizer que isso é justiça, é uma tentativa de corrigir os erros do passado e evitar que fanatismo, de qualquer espécie ou matiz, faça novas vítimas.

Radicalismo nunca levou à nada. E boa prova disso, nos tempos atuais, é o MST - que perde credibilidade, razão e coração, quando empresta ações violentas ao ideal da reforma agrária.

Julgar Stroessner, Videla, Médici e outros tantos generais é preciso. Não por sanha de vingança, mas para que se corrija a História. Muitos ainda estão por aí, vagando impunes, mesmo que tenham as mãos sujas de sangue. Pinochet está a um passo do banco dos réus, mesmo no Chile. Por que nós haveríamos de ser diferentes?

Por que deveríamos ser complacentes, perdoar indiscriminadamente, quando há tanto ainda por esclarecer?

O perdão só pode ser exercitado diante da verdade. E verdade sobre os fatos de 20, 30 anos atrás é tudo o que não temos e não sabemos.

Está na hora de caçar o Condor, revirar seu ninho e olhá-lo nos olhos, para que tenhamos condições verdadeiras de perdoar. Mas isso, tenho certeza, só será possível quando a História for passada a limpo.