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Bem diz o ditado que a "Justiça tarda mas não falha". Do jeito que o mundo está, dá até para acreditar que ele vá se concretizar em terras sul-americanas. Se a gente já tem fama de abaixar a cabeça para praticamente tudo, vem do Chile o primeiro sinal de que isso pode estar mudando.
Estou falando do fato de a Justiça Chilena ter quebrado a imunidade parlamentar de Augusto Pinochet. O velho general já não está mais sob o manto da impunidade e poderá ser processado por crimes contra a humanidade (é isso mesmo, porque chamar de violações de direitos humanos é muito pouco, você não acha?). Aquilo que o juiz espanhol não conseguiu, a Justiça chilena pode por suas próprias mãos.
Tudo bem que os advogados do velho caudilho já anunciaram que vão recorrer e alegar que a frágil saúde do ditador não permite que ele encare o banco dos réus. Só que eles cometeram um erro fatal (para a causa que defendem), quando Pinochet desceu da cadeira de rodas para cumprimentar seus pares militares, quando voltou da Inglaterra, escapando do julgamento em terras espanholas.
A cena, transmitida via TV para todo o planeta, mostrou que Pinochet não está tão fragilizado quanto seus médicos e advogados querem fazer crer. Se ele pode se levantar para abraçar militares, também pode se levantar para ouvir a sentença da Justiça, depois do julgamento.
E se nenhuma farsa for montada, o julgamento certamente terminará com a condenação do velho caudilho. Sem maracutaia, o velho ditador certamente trocará o pijama da aposentadoria pelo pijama de presidiário. Provavelmente, só mudará a cor do pijama, para ele. Para o mundo, no entanto, isso pode fazer uma grande diferença.
O caso Pinochet pode tornar-se um exemplo de que ditadores de toda espécie já não podem simplesmente deixar o poder e dizer "vou para casa". Ou mudar para outro país e viver às custas de muito dinheiro, freqüentemente arrebanhado a custo de sangue e lágrimas da população espoliada em seus direitos e dinheiros.
Fortunas amealhadas em anos de chumbo, não devem pesar na consciência apenas dos espoliados. Deveriam pesar também na consciência de quem pilhou a liberdade, espoliou os direitos humanos, rasgou a vida.
Já passa da hora de o planeta fazer seu mea-culpa, banindo ditadores e promovendo julgamentos justos. Continuo aqui, acreditando piamente que tais julgamentos deveriam acontecer na Corte Internacional de Haia. Assim, a decisão seria mundial, valeria em todos os cantos do mundo e ninguém poderia alegar ignorância ou dar asilo a um condenado: ele teria de cumprir a pena a que fosse sentenciado, integralmente, em seu país. E, caso essa pena fosse abrandada ou irregularmente cumprida com mordomias, o país sofreria sanções internacionais.
Mas isso é utopia pessoal e intransferível. Pode até ser que tenha mais gente por aí, pensando como eu... Pode ser que não tenha.
Na dúvida, fico por aqui, tocando a vida, pensando que, realmente, Pinochet vai mudar de pijama...
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