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Não são só os norte-americanos que perseguem seus fantasmas... Uma notícia dada ontem à noite, perdida em meio a tantas outras, é a prova de que estamos tentando exorcizar os nossos próprios fantasmas. Se eles têm o Vietnam, nós temos a ditadura militar...
Agora, o Congresso Nacional aprovou uma CPI para desvendar o mistério que cerca a morte de João Goulart, o presidente deposto pelos militares em 64 e que teria morrido de parada cardíaca, na Argentina, pouco tempo depois.
A ansiedade é para saber se Jango foi mesmo vítima de seu coração ou se foi morto. A hipótese que tira o sono dos brasileiros é a de que Jango tenha sido morto numa mirabolante operação militar, patrocinada pelas ditaduras brasileira e argentina, como forma de evitar a oposição aos dois regimes. A Operação Condor.
Argentinos e brasileiros vestidos de verde-oliva sonhavam com domínio total sobre suas nações, a qualquer custo. O fantasma do medo do comunismo, travestido de patriotismo a toda prova, patrocinou a caça às bruxas em solo sul-americano.
Se a América do Norte, os EUA, especificamente, teve seu período idêntico, logo depois da 2ª Guerra Mundial - e que foi batizado de Macarthismo -, nós vivemos essa paranóia de forma sangrenta. Se lá fora o anticomunismo resultou em prisões, tortura psicológica, perda de emprego, banimento da sociedade, aqui a caça às bruxas resultou em prisões, tortura física, mental e psicológica, chantagem, assassinato a sangue frio, bombas, terrorismo em sua face mais cruel.
De ambos os lados, mas com profundas diferenças. Entre os comunistas, um quase que amadorismo, bombas caseiras, Fuscas usados em fugas em sua maioria desastrosas, panfletos e jornais clandestinos, reuniões em faculdades, bares e teatros, uma resistência que só teve um quê de paramilitar no Araguaia, sob o comando de Lamarca. Do outro lado, oficiais treinados pelo exército americano, melhor armamento, carros do ano, tanques de guerra, bombas de todos os calibres e potências.
Uma luta desigual... Ainda mais quando se sabe que tudo tem seu preço e o preço de então era a imunidade parlamentar, o consentimento tácito ou explícito para práticas arbitrárias, praticadas por grupos "de elite", como o que foi comandado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, apresentado à nação como um herói moderno, um ídolo para militares e policiais de todos os matizes.
A História se encarregou de desmistificar Fleury... Mas o passado ainda nos condena e precisamos exorcizar nossos fantasmas... Fantasmas que têm nome e sobrenome, que têm história e fazem parte da nossa história, da história de cada um de nós. Somos fruto dos anos de chumbo e isso nenhum de nós pode negar. Nossos fantasmas atendem pelo nome de Jango, Juscelino, Zuzu Angel, Rubens Paiva, Lamarca...
A lista é imensa. Você pode até nem conhecê-los, pode até só ter ouvido falar, em algum momento de sua vida escolar. Mas eles estão bem vivos, ainda assombram nossa consciência. Como o próprio Caso Riocentro, que acaba de ser arquivado pela Justiça Militar.
Se nossos fantasmas precisam ser exorcizados, com certeza nossa memória precisa ser reavivada e nossos brios serem chamados às falas. Nosso sangue precisa ferver de vez, só que em melhor sentido. No sentido de passar nossa História a limpo, repondo as coisas em seus devidos lugares, admitindo erros e buscando acertos.
Só que isso tem um preço alto, muito alto. O preço de termos de encarar nosso passado de frente, ainda que isso doa mais do que se possa esperar... Resta saber se todos nós teremos coragem para isso. Todos, sem exceção. Afinal, é dos tempos de exceção que estamos falando e é de dentro deles que precisamos tirar os nossos fantasmas...
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