Sabe que, às vezes, ainda perco um bom tempo tentando entender como funciona a cabeça de um deputado, especialmente daqueles que povoam Brasília, mas quase nunca conseguem povoar o plenário da Câmara?

Pois é... Agora mesmo, enquanto tomo meu capuccino "sagrado", estou tentando decifrar esse enigma que parece ter vida tão longa quanto o enigma da Esfinge. E olha que não tenho a menor vocação para deitar no divã e denunciar um complexo de Édipo!!!!

Deixando as gracinhas para lá, estou aqui, tentando entender como é que pode alguém tentar alterar um projeto de lei, escudado em razões pífias, comprometendo o futuro da maior área verde do planeta.

Do que estou falando? Do projeto que prevê regras para a exploração da floresta amazônica. O relator - de quem, no momento, não me lembro o nome, infelizmente... - simplesmente está alterando prazos e dimensão das áreas em que será permitida a exploração da floresta e da terra. Em resumo, ele está alterando o tamanho da floresta que poderá ser devastado, sob as bençãos da lei.

O projeto do governo prevê a exploração de 20% da Amazônia e a preservação dos restantes 20%. Em três, dependendo de estudos técnicos abalizados e relatórios de impacto econômico e ambiental, esse limite pode vir a ser ampliado para 50%.

Confesso que, pessoalmente, acho 50% muito. A Amazônia praticamente só comporta um tipo de exploração: o ecoturismo. E, ainda assim, bem orientado, já que o equilíbrio da floresta é extremamente delicado, apesar de suas dimensões gigantesca.

Só que o tal relator está alterando isso. Ele prevê a exploração de até 80% da área de floresta. E sabe qual a alegação: somos um país com milhões de pessoas famintas e precisamos de área para plantar.

Mas... Na Amazônia?????

Todo mundo está cansado de saber que o solo da floresta não serve para a agricultura. É um solo sem fertilidade. E a floresta só sobrevive porque se devora a si mesma. A floresta é canibal e vive de devorar aquilo tudo dela mesma que não conseguiu sobreviver.

Quem já esteve lá - e eu tive esse privilégio - pode ver de perto... Ali, tudo é gigantesco. As árvores são imensas, as flores surpreendentes pelo tamanho e pelas cores. Tudo é superlativo. Só que as raízes que sustentam esse mundo fascinante e gigantesco, não se enterram no solo. Espalham-se sobre ele, agarram-se às rochas, entrometem-se por entre os troncos, penduram-se nos galhos. A floresta se emaranha, se enrosca, se embola em si mesma e é assim que cresce, que se sustenta, que se renova.

Quando a floresta é devastada, surge um solo arenoso, sem vida. As rochas, que antes eram cheias de visgo, flores e raízes, mostram-se nuas e esfareladas, desmanchando-se ao mais suave toque... E é desse solo, dessas rochas, que o tal deputado quer tirar alimentos...

Definitivamente, eu não consigo acreditar e muito menos entender o funcionamento da cabeça desse tipo de parlamentar. Se o país precisa de alimentos, então que se viabilize a reforma agrária, que se viabilize financiamentos para pequenos e médios produtores, que se priorize os alimentos na hora de escolher onde aplicar o dinheiro destinado à agricultura.

Devastar a floresta sob esta alegação é, no mínimo, acreditar que somos um imenso país de burros, onde enganar o próximo é a lei e onde o desperdício de vida (de toda sorte - animal, vegetal, humana...) é a regra a ser seguida.

Do jeito que a coisa vai, se o projeto for aprovado tal como quer o dito relator, vamos ter de mudar todos os símbolos nacionais, inclusive a letra do Hino.

Podemos esquecer, por exemplo, o verso que diz que "nossos bosques têm mais vida" e a definição das cores da bandeira, onde consta que o verde representa a riqueza vegetal do país, em especial suas florestas.

A Mata Atlântica já se foi e a Amazônia está entregue à gente que não a conhece nem ao menos em sonhos.

É... Podemos começar a mudar as cores da bandeira...