Existem certos momentos, na vida da gente, em que a palavra vergonha ganha contornos tão nítidos, um significado tão pesado, que parece até impossível sobreviver a ela. E, no entanto, todos continuam por aí, com a cara mais deslavada, parecendo até que ela não existe no dicionário.

E se você estiver se perguntando sobre o que falo agora, respondo que o assunto não pode ser outro que não a aberração promovida pela Câmara dos Vereadores de São Paulo, com o patrocínio de Celso Pitta.

Estava aqui, pensando com meus botões, enquanto escutava meus neurônios neuróticos protestando veementemente contra o cambalacho consumado...

R$ 1,3 milhão para manter o cargo de prefeito de São Paulo por mais 5 meses... Esse foi o preço pago por Pitta, rateado entre os tais "vereadores da situação".

Aí fiquei me perguntando se esse preço não era alto demais... Ou seria baixo demais???

Teco, o mais neurótico de meus neurônios, anarquista por temperamento, dá discursos por aí, proferindo impropérios contra tudo e todos... E lembra: o dinheiro usado para comprar o cargo para Pitta saiu de nossos bolsos...

Sem poder tirar-lhe a razão, eu só escuto.

Tico, mais ponderado, diz que isso é o fruto mais escabroso de uma cultura política secular, que apenas amadurece em nossos tempos. Também não lhe posso tirar a razão e fico sem saber o que responder. Indignação, às vezes, não tem tradução em palavras ou gestos imediatos.

E fico pensando, pensando... Tentando imaginar se Celso Pitta acredita que está vivendo em outro país (na França, talvez...), onde a impunidade é a sua garantia e o dinheiro a sua salvaguarda.

Quem sabe?, a lei de responsabilidade fiscal não vá alcançá-lo, apesar de todas as contas mostrarem que ele vai deixar uma dívida astronômica para seu sucessor. Como na velha mania de que o vale para uns, não vale para outros. Talvez ele também esteja imune ao fisco... Talvez ele só seja sensível aos apelos das máfias - dos fiscais, do PAS, do frango...

Talvez ele... Talvez os vereadores...

Talvez todos eles sejam imunes à vergonha!

E a nós, que não somos imunes à ela, só resta brincar de circo e, como Arrelia, começar a brincar, recitando em coro:

"Hoje tem marmelada?

"Tem sim, senhor..."