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Semana começa com gosto de nostalgia, de saudade. Afinal, lá se vão 20 anos sem o Poetinha, sem Vinícius de Moraes.
Quando me lembraram disso, foi inevitável recordar o dia em que conheci esse monstro sagrado da música e esse mestre da poesia.
Não deixa de ser estranho pensar que um dia eu estive frente a frente com ele. Uma adolescente deslumbrada com a descoberta da própria capacidade de conversar, entrevistar, e, depois, repassar a conversa para outras pessoas, através das páginas de um jornal.
Mas lembro bem do frio na espinha e "na boca do estômago", quando, sentada no saguão do hotel, pude ver aquela figura mágica descendo as escadas que conduziam ao quarto. Um homem de longos cabelos brancos, apesar da calvície avançada, cavanhaque crescendo, camisa xadrez meio desabotoada na barriga (por descuido, mesmo...), calça escura, sapatos confortáveis e um copo de uísque com gelo na mão.
Seria um típico boêmio, se não houvessem alguns diferenciais radicais. A figura, que olhada isoladamente passaria perdida em uma multidão, tornava-se soberba e carinhosa, quando se percebia o brilho intenso dos olhos miúdos. E a voz firme. Uma voz que desafinava quando cantava, mas que era imbatível, quando dizia os poemas que as mãos escreviam.
Confesso que fiquei embasbacada, por estar diante daquele que escrevera poemas que eu sabia de cor (e ainda sei!) e que escrevera canções que até hoje todos nós cantamos.
O jeito híbrido, entre paterno e petulante, tanto podia causar repulsa quanto podia cativar. À mim, cativou. A maneira clara de se expressar, o toque de irreverência na fala, os gestos lentos e "abaianados", compunham um quadro quase excêntrico, que a Poesia pincelava de luz.
Para uma adolescente, tornou-se impossível esquecer aquelas mais de duas horas de conversa jogada fora... Para mim, como pessoa, tornou-se impossível esquecer mais de duas horas de aprendizado.
Vinícius, obviamente, tinha defeitos mil, enquanto pessoa. Mas tinha, também, aquele toque especial que só os gênios têm. Meio que excentricidade, meio que lenda que caminha entre nós, ele parecia ter consciência de que carregava em si a essência de algo que não pode ser subtraído aos homens: a mistura de esperança com poesia.
Essa mistura, que só é alcançada por seres especiais, resulta em obras primas imortais, em lições de vida que pontilham cada gesto, cada frase, cada verso.
Vinte anos sem o Poetinha, são 20 anos de uma perda quase que total.
Só não o é porque Vinícius teve a gentileza e o desprendimento de nos deixar uma vasta obra poética, em ensaios, poesias, músicas. Uma obra que, mesmo tantos anos depois, ainda é capaz de comover e encantar.
Mais que isso, essa obra ainda é capaz de manter viva, em nós, a certeza de que as Musas vivem. Não importa onde, não importa como, não importa com quem. Elas vivem. E, como Vinícius, elas vivem e viverão eternamente.
Porque é impossível arrancar os sonhos e a esperança dos Homens.
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