Existem situações que são, no mínimo, esdrúxulas...

Você já reparou em quanto micos a gente sai pagando por aí, simplesmente por que não paramos para olhar onde estamos entrando??

Pois é... Aconteceu algo assim... E juro que fiquei me perguntando onde é que iria dar o tal sujeito atabalhoado e falastrão.

Vou contar-lhe a historinha...

Estava eu na redação do jornal e, ao sair para o famoso cigarro e a necessária pausa na digitação, dei de cara com um senhor de uns 30 e poucos anos, que falava sem parar, querendo fazer isso e aquilo, armando esquemas mirabolantes para alavancar, logo de cara, a candidatura de um empresário a prefeito da cidade.

Sentei-me e fiquei observando. O rapaz, todo agitado, falava e gesticulava sem parar, traçando no ar desenhos de esquemas "infalíveis" para distribuir santinhos, colocar faixas, fazer um "corpo a corpo" inigualável.

Mas, para colocar seu plano infalível em prática, teria de ter isso, aquilo, aquilo outro e mais aquilo. Precisava de verba. E urgente. Dinheiro para combustível, cabos eleitorais, etc, etc, etc, etc, etc, etc...

Se recebesse tanto, daria para fazer tanto. Se recebesse aquele outro tanto, poderia fazer mais aquilo.

E assim foi por uns cinco ou dez minutos, enquanto a secretária - estupefata, é óbvio! - tentava fazê-lo entender que havia entrado no prédio errado. Que o comitê do empresário candidato ficava no prédio ao lado, cuja entrada estava localizada na rua detrás.

O tal moço não queria ouvir explicações e queria, praticamente exigia, falar com o candidato ali, naquela hora, sem qualquer porém.

Não resisti e meti-me na conversa. Afinal, adoro uma coisa mal feita...

Olhei para ele e disse-lhe, com toda a calma que consegui manter, por que minha vontade era explodir numa sonora gargalhada: "Meu senhor, talvez fosse melhor o senhor procurar o comitê do candidato".

Ele me olhou como quem diz "você está debochando de mim", trancou a cara e respondeu: "Mas eu já estou aqui! Cadê o candidato?" Em resposta, eu apenas disse: "O candidato deve estar no comitê ou fazendo as visitas de praxe. O senhor está na recepção do jornal".

Foi quando ele parou para reparar no ambiente e conferir o local: nada de fotos, nada de faixas, nada de cabos ou assessores eleitorais. Apenas repórteres entrando e saindo, pessoas preenchendo fichas de emprego, querendo fazer anúncios.

Boquiaberto, ainda tentou me dizer que havia uma pintura no muro do prédio, indicando que ali seria o comitê. Respondi-lhe que, mais uma vez, ele estava enganado. A pintura correspondia aos fundos do prédio do comitê, que faz fronteira com o prédio do jornal.

Como ele ameaçou uma reação de teimosia, arrematei: se o senhor tivesse parado para olhar, veria que na fachada consta o nome do jornal.

Foi quando ele decidiu sair e conferir a fachada. Olhou e foi ficando vermelho... Vermelho... Vermelho!

Olhou-me, tentou sorrir, tirou do bolso as chaves de sua possante camionete, entrou nela e sumiu...

Eu só não soube se ele conseguiu encontrar o comitê do tal candidato...