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Falar de política em plena segundona já virou hábito...
Difícil resistir à tentação, principalmente quando a segunda-feira (ARGHHHH) começa com um brilhante artigo de Fernando Canzian, publicado pela Folha de São Paulo.
Leia com muita atenção e depois a gente conversa:
"A meia conversão de Lula
"Na semana passada, em Davos (Suíça), o presidente Lula ouviu do principal executivo do Citibank, William Rhodes, que seu banco gostaria de investir mais no Brasil. Mas que, infelizmente, não encontra instituições à venda.
"É uma mudança e tanto. Em 1994, quando Lula ainda era favorito na corrida presidencial (antes de ser abatido pelo Plano Real de FHC), Lula e Rhodes se encontraram em Nova York em termos bem menos amistosos.
"Rhodes foi a um evento em que Lula estava e, de forma bem deselegante, encostou os dedos no peito do brasileiro e perguntou, em um português ruim: 'O senhor pretende pagar a dívida ou não?'. O fato foi notado por alguns jornalistas, para constrangimento de Lula, que desconversou na reposta.
"Na época, Rhodes era o chefe do comitê de bancos que negociava a imensa dívida externa brasileira que Lula vivia dizendo que não honraria caso eleito.
"Oito anos depois, em 2002, Lula pagaria pela língua ao conquistar a Presidência em meio a uma crise cambial e com o dólar batendo em R$ 4 pelos temores de que, além de não pagar a dívida externa, trouxesse um arsenal de besteiras para a economia.
"O resultado da desconfiança foi um forte ajuste no primeiro ano de Lula. O PIB cresceu só 0,5% em 2003. A partir de então, Lula entregou-se à ortodoxia e, convertido ao mercado, estabilizou o país e colocou em prática, com sucesso, alguns bons instrumentos de distribuição de renda.
"Na semana passada, o presidente iniciou o segundo mandato lançando o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O plano revelou que a conversão de Lula ainda não se deu totalmente e que o presidente atravessa um confusão mental digna de alguém que ainda não está totalmente convencido - ou não sabe - no que acreditar.
"No PAC, as duas principais medidas para conter os gastos públicos (indexar a correção do salário mínimo à inflação e ao PIB e limitar o aumento da folha do funcionalismo à inflação mais 1,5% ao ano) são tão difíceis de aprovar quanto de controlar. Se isso for feito, será um milagre importantíssimo. Mas apostar que não serão aprovadas ou cumpridas é o mais seguro.
"O maior problema, porém, está em outros aspectos do PAC. Não houve nenhum corte de impostos importante ou horizontal para toda a economia ou medida prática de peso para estimular o setor privado a investir mais. A aposta, mais uma vez, é de que o setor público ineficiente, corrupto e paquiderme brasileiro resolva o problema.
"O Brasil só vai parar de patinar quando o nível total de investimentos crescer bem acima dos 20% do PIB de hoje (40% na China), dos quais o governo participa com mísero 1 ponto percentual - o resto é privado.
"Mas a ênfase do PAC é quase toda pública, com planos de usar mais dinheiro administrado pelo setor público (caso do FGTS) para tocar projetos de investimento públicos. A escolha do destino dessas verbas obviamente continuará seguindo critérios clientelistas e políticos, com as mamatas e desvios de praxe.
"O fato é que entre o lançamento do PAC e hoje, nada de significativo mudou para quem realmente tem condições de salvar o país. O setor privado continuará suportando a mesmíssima carga tributária (quase 40% do PIB, contra 25% nos outros emergentes) e temendo cada vez mais o descontrole das contas do governo.
"Entre o encontro de Lula e Rhodes em Nova York, foram precisos oito anos para que nosso presidente se resolvesse sobre a dívida. Aparentemente, serão preciso mais oito de crescimento medíocre, até o fim de seu mandato, para que ele possa finalmente chegar a uma conclusão melhor do que a demonstrada no seu PAC. Infelizmente, será um pouco tarde."
Pense nisso...
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