Se o governo brasileiro imaginou que conseguiria fazer festa em todo o país, para comemorar os 500 anos do descobrimento oficial, deu com os burros n’água...

Na semana passada, as nações indígenas anunciaram que não vão participar das festividades, como todos queriam e esperavam. E, pelo visto, não vai adiantar tentar argumentar. Os nossos bugres estão determinados e, mais que isso, cobertos de razão.

Um dos caciques foi direto ao ponto: por que os índios deveriam comemorar um fato que só foi importante para o homem branco?

Mais que isso, ele acertou o coração da questão, quando proclamou: como pode o índio comemorar sua escravidão, a extinção de tantas tribos, a tutela governamental e o desrespeito às suas terras, sua gente, sua cultura?

Bingo!!!!

Mais preciso, impossível. Mais poderoso argumento que este, improvável... Posição mais correta que essa, impossível de se encontrar...

Quando os portugueses oficializaram ao mundo a descoberta do Brasil, os índios já estavam aqui. Eram os donos da terra. Eram senhores do espaço e conviviam pacificamente com a natureza. Tinham lá suas diferenças entre si, mas isso eles resolviam à sua maneira. Arco-e-flecha de um lado, tacape de outro, astúcia dos dois e pronto! Era tudo em pé de igualadade.

Os brancos chegaram, trouxeram armas de fogo, trouxeram sua fé numa cruz desconhecida, trouxeram o chicote, a chibata, os grilhões e a escravidão. Trouxeram o desrespeito, a doença, a conversão forçada, a destruição.

O que é, então, que as nações indígenas teriam para comemorar esses 500 anos?

Como eles mesmos argumentam, só se fosse para tripudiar e comemorar, entre outras coisas, os garimpeiros assoreando e envenenados os rios; os madeireiros destruindo as matas; os brancos dizimando os índios com gripe, varíola, febres diversas; os estrangeiros roubando os segredos da medicina natural e as plantas que curam...

Comemorar o que????

Não há o que retrucar... Não há o que argumentar...

A razão está com eles. E isso é incontestável... O melhor, então, é refletir sobre o que fizemos com nossos ancestrais, ao longo desses 500 anos. E motivos para isso, existem de sobra.