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Meu horóscopo avisa: é tempo de ficar calada, praticar a meditação e evitar polêmicas.
Dizem que o período apresenta tensão entre Marte e Mercúrio e que, por isso, eu estaria sujeita a chuvas e trovoadas, sendo mal interpretada ou sofrendo ataques pela veemência com que posso dizer coisas que incomodam.
Bom... Horóscopo à parte, é preciso correr certos riscos. Aliás, na vida, tudo é risco!
E o risco maior que corremos todos, hoje, é o dos "velhos novos tempos".
A atitude de um juiz de Brasília (concedendo liminar a Fernando Sarney e impedindo o jornal O Estado de São Paulo de continuar a divulgar uma série de reportagens sobre o presidente do Senado (José Sarney) e sua família (leia-se seu filho, o próprio Fernando), apontando as irregularidades cometidas e também possíveis crimes) é, no mínimo, uma distorção da lei.
Sempre haverá aquele que dirá que é preciso preservar as liberdades individuais, a imagem de cada pessoa e respeitar os limites da privacidade.
Concordo em gênero, número e grau.
Mas discordo, com veemência, da atitude e da sentença tomadas.
Todo cidadão tem - por direito e dever - de zelar pelo cumprimento da lei. É isso o que se espera da vida em sociedade regida por um conjunto de regras que, em última instância, fixa os parâmetros da ética que deve ser adotada para tal convivência.
Se os Sarney - José e Fernando - não agiram assim, colocam-se sob o martelo da Justiça e estão sujeitos às marretadas oriundas da ética, da moral, dos famosos bons costumes e especialmente da lei - regularmente elaborada, votada, aprovada e promulgada.
A Constituição brasileira reza, logo em seu preâmbulo, que todos são iguais perante a lei, sendo proibido qualquer tipo de distinção: sexo, cor, religião, raça, opção sexual e condição social.
E, aqui, cabe lembrar que a classe política não está acima da lei, por ser a classe política.
Nem presidente, nem senador, nem deputado federal, nem deputado estadual, nem governador, nem ministro, nem prefeito ou vereador estão acima da lei.
Nem eles, nem seus familiares e/ou amigos.
Os Sarneys, José e Fernando, não podem ser colocados no patamar sugerido por Lula, o de cidadãos especiais. Não há está categoria de cidadão no texto da Constituição.
Se os Sarneys, José e Fernando, envolveram-se em atos escusos, atos secretos, negócios duvidosos, se obtiveram quaisquer tipos de favorecimentos, em seus negócios ou qualquer outra atividade, estão sujeitos às penas da lei.
Divulgar esses fatos - com base em material produzido por investigação policial - é um dos ofícios dos jornalistas.
Se há prova que sustente a denúncia (e no caso existem as escutas autoridades pela Justiça), ela deve ser tornada pública. Pelo bem de toda a sociedade, ainda que isso custe a notoriedade negativa dos Sarneys - José e Fernando.
Por analogia, aplica-se aqui o ditado popular, que diz ser preferível perder-se uma ou duas laranjas, mas salvar todo o restante da caixa.
E esta caixa (o Brasil, neste caso) é muito, muito grande para ficar sujeita às vontades e melindres de apenas uma família - por mais famosa que seja, por mais influência política que tenha, por maior que seja seu poderio econômico-financeiro.
Os "Marimbondos de Fogo" de Sarney, o José, esvoaçam por sobre nossas cabeças, zumbindo ameaçadoramente, assumindo a forma de Renan Calheiros - aquele mesmo que um dia apoiou Collor de Mello e hoje sustenta Lula sobre seus ombros.
São tantos os interesses envolvidos que é inevitável o escândalo e suas proporções arrasadoras.
Esse tsunami político que varre o Congresso Nacional (entendo que a crise não é apenas do Senado) tem jeito de expurgo.
Varre para fora da vida pública nomes que antes julgávamos intocáveis. E por motivo justo.
Quando se toma conhecimento do entrelaçamento dos fatos, da sucessão de atos questionáveis envolvendo os Sarneys (e aqui se inclui, ainda, a filha Roseana), tem-se a impressão de que a República posa submissa à vontade do clã.
A liminar do desembargador Dácio Vieira é, no mínimo, incoerente com o Estado de Direito e fere de morte a liberdade de imprensa.
Liberdade com responsabilidade, com respeito à ética e à Lei, é a essência da Democracia e de uma sociedade mais justa.
Denunciar desmandos, favorecimentos, manuseio da máquina e do dinheiro público em benefício próprio (como tudo sugere ter sido feito pelo clã Sarney), é o mínimo que se espera da Imprensa de um país livre.
Amordaçar, manietar um órgão de imprensa - seja ele o Estadão ou um pequeno jornal do interior do país - é um atentado à boa fé dos brasileiros, crime contra a Democracia e instalar, novamente, um estado de terror.
Já passamos por isso antes e, posso lhe garantir, seria tenebroso passarmos de novo.
Quando um clã se coloca acima da lei, o risco é perdermos nosso norte democrático.
O "coronelismo" político não pode continuar a existir, sob pena de enveredarmos pela senda do autoritarismo novamente.
E isso, acredito que ninguém queira. Mesmo que alguns ainda tentem...
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