Domingão, 7 de la matina...

Acordo prontinha para torcer. Afinal, adoro esportes e quase todas as modalidades me atraem.

Sempre há algo interessante a ser observado em uma modalidade esportiva - ainda mais se ela for olímpica e se os Jogos acontecem em Atenas.

Confesso que me tornei "olimpicomaníaca" e tenho procurado acompanhar todas as transmissões possíveis. É um tal de ir dormir tarde e acordar assim que começam as transmissões, que eu já nem sei ao certo qual é o meu fuso horário real.

É sempre assim: tem Jogos Olímpicos, entro em parafuso horário.

Em muitas ocasiões, valeu a pena.

Agora, nem tanto...

Fico imaginando como o país vai reagir, ao fazer um balanço de sua participação em Atenas.

Mandamos para a Grécia a maior delegação de atletas em todos os tempos - à espera, é óbvio, de obtermos o melhor resultado de todos os tempos.

Éramos barbada em algumas modalidades, pela primeira vez na História!

Na terra dos deuses, poderíamos chegar ao Olimpo!

E tomamos um tombaço daqueles!...

Se puxarmos pela memória, lembraremos de Guga, caindo logo na estréia. Mas... Tudo bem! Afinal, ele foi eliminado por Massu, que deu uma aula de garra e persistência e ficou com o ouro. Perder para o campeão é quase sempre um consolo.

Éramos barbada no solo da Ginástica.

Pobre Daiane dos Santos!...

Jogaram sobre seus ombros o peso de um país, mas esqueceram-se de avisar que ela havia operado o joelho, que a perna ainda não estava tão firme quanto antes, que o esforço seria hercúleo e que as adversárias também vinham se preparando intensamente para a disputa.

Resultado: a melhor colocação de uma ginasta brasileira em todos os tempos - mas todo mundo dizendo que ela havia perdido o ouro...

Deixou de ganhar, deveria ser a colocação certa.

E deixou de ganhar por motivos vários e mais que aceitáveis.

Nós é que exageramos na dose e esperamos demais de uma atleta em recuperação.

Esqueceram de dizer ao Jadel que Jogos Olímpicos não se ganha apenas com esperança e promessa.

Na hora do salto, faltou fôlego e extensão.

Jadel volta sem medalha e com gente cobrando dele a manutenção de uma tradição que precisa de mais que talento, para ser mantida...

Esqueceram de dizer para as meninas do vôlei que a medalha de ouro não vem só porque o time venceu o Grand Prix.

Era preciso ter raça, ter manha, ter vontade, ter personalidade.

E elas, pelo visto, esqueceram tudo isso no alojamento da Vila Olímpica, na hora de decidir o jogo contra a Rússia.

Tiveram nada menos que sete oportunidades para ganhar o jogo e garantir a vaga na final. Jogaram fora...

Esqueceram de dizer para as meninas do basquete que não dá para garantir medalha só lembrando de como era no tempo em que tínhamos gênios em quadra (e aqui, lembre-se de Magic Paula e de Hortência).

Esqueceram de dizer à elas que a Janeth sozinha não ganha um jogo olímpico...

Esqueceram de dizer ao Barbosa que é preciso entender o time que se tem nas mãos e procurar dar personalidade à equipe, respeitando individualidades e tentando harmonizar o conjunto.

E elas voltam sem medalha...

Esqueceram de dizer às meninas do vôlei de praia que ser campeã do mundo várias vezes não é garantia de medalha de ouro em qualquer competição. É preciso saber superar limites e adversidades.

Esqueceram de dizer ao pessoal da natação masculina que a sombra de uma medalha não se transforma em nova medalha apenas pelo querer.

Era preciso nadar muito mais do que se nadou em Atlanta ou Sydney.

E a natação volta sem medalhas.

Mas há que se fazer justiça a nomes que surgiram em Atenas e que podem se transformar em grandes exemplos e grandes medalhistas.

A lista é longa, mas a gente pode falar em Joanna Maranhão, em Juliana Veloso, na própria Daiane dos Santos, no excepcional time de futebol feminino - de Pretinha, Cristiane e da incrível Marta.

Temos gente muito boa sem apoio. E gente nem tão boa, com apoio e afagos demais no ego.

Enquanto não distribuirmos igualitariamente o apoio, o incentivo e o reconhecimento, viveremos nas sombras de grandes feitos olímpicos, que foram, na realidade, mais conquistas individuais que propriamente resultado de um bom planejamento.

Sacrificamos, em tempos recentes, atletas que mereciam mais respeito.

Prova viva é Rodrigo Pessoa e seu Baloubet du Roet.

Cavalo e cavaleiro quase foram linchados, depois do refugo em Sydney.

Hoje, voltam com medalha no peito e olhares carinhosos, quase caridosos.

Somos exigentes e sonhadores demais!

Isso é bom, mas é preciso cuidado para não excedermos os limites da razão.

É preciso torcer com emoção, mas é preciso razão para entender que nosso suposto fracasso é fruto muito mais dos nossos erros, que do fraco desempenho de nossos atletas.

Um dia, certamente, aprenderemos isso.

E com o talento que o brasileiro tem, certamente poderemos sonhar com muitas outras medalhas...