Sabe que nem sei por onde começar?...

Confesso que me descobri "destreinada" para certos aspectos da profissão. Quando a gente se dispõe a fazer reportagens, tem de estar pronto para tudo. Literalmente tudo. Tem de estar pronto para lidar com a vida e também com a morte.

E foi exatamente isso o que aconteceu na última noite. Em pleno de fechamento de edição, quando o cansaço já fala mais alto e o relógio parece andar mais lento, eis que surge o aviso de que um homicídio acabara de ocorrer.

E lá fomos nós, cumprir o espinhoso ofício de informar. Para cumpri-lo, antes tem-se de saber o que aconteceu... As clássicas perguntas "o que", "onde", "quando", "como", "com quem" e, sempre que possível, "por que"...

Um típico caso de homicídio aparentemente por vingança. Um homem executado à porta de uma mercearia... Tiros de pistola 380 mm... Cabeça atingida...

Ao meu lado, uma jornalista que fazia sua primeira cobertura de um homicídio. E o impacto estampado em seu rosto: ela ficou branca, deu para perceber a boca seca e o esforço em continuar em busca da informação correta, mais precisa. Ela resistiu bravamente...

Afinal, não era uma cena agradável...

Mas sabe o que mais choca, numa situação como essa?

A reação do povo... Gente se amontoando para ver alguém com literalmente com os miolos estourados... Gente se espremendo, querendo ver até onde o sangue que escorria iria chegar... Gente tentando olhar para a cara desfigurada do morto... Gente dizendo isso e aquilo, sempre aos cochichos, esticando o pescoço para tentar captar mais algum detalhe.

Tanta gente que o carro da funerária, que iria recolher o corpo, teve dificuldades em chegar ao local e se posicionar, para que os funcionários pudessem cumprir seu ofício macabro.

Macabro, mesmo, foi ver mães levando filhos pequenos para verem a cena grotesca.

Mulheres que carregavam pequenos no colo, levando para mostrarem como o fim da vida pode ser cruel.

Mulheres que arrastavam meninas assustadas, que hesitavam em acompanhar tão deprimente espetáculo.

Meninos à solta, com ares vadios, empurrando a cabeça entre braços e corpos que se espremiam, buscando uma melhor visão da tragédia urbana...

Ainda me pergunto o que era mais grotesco: o corpo de um homem caído, com a cabeça esfacelada a bala, banhado em sangue, ou mulheres carregando crianças para mostrarem o quadro horrendo...

Essa pergunta não me sai da cabeça. E quanto mais a faço, mais uma resposta me vem à cabeça: essa é uma daquelas coisas que ninguém explica...

Nem mesmo a vida!...