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A semana começa e eu confesso uma coisa: ainda estou "ruminando" o que vi ontem, na TV. A tal história dos "santos de cemitério", aquelas pessoas veneradas como santos, tidas como fazedoras de milagres...
Não que essa fé me surpreenda ou me cause um espanto mais profundo. Ao contrário. Acho que todos nós já vimos, ao menos uma vez, um túmulo desses, onde todos passam, acendem uma vela e fazem preces, na esperança de obterem um milagre, a graça tão esperada...
Na verdade, o que me causou tão profunda impressão foi saber que também o túmulo de Clara Nunes virou objeto de romaria, de pedidos e de alegadas graças alcançadas.
Eu não duvido, sabia?
Tive o privilégio de acompanhar a carreira da Guerreira... Vi quando ela surgiu, acompanhei sua explosão e sua transformação. Da mineira que chegou sambando, transmutou-se numa mulher soberba, de voz clara, límpida, forte.
Clara clareou. Reluziu. Do "Canto de Areia" ao "Canto das Três Raças", Clara mudou. Aperfeiçou-se. Os cabelos mudaram. O visual mudou, "amacumbou-se". Era o retrato da fé escolhida, do caminho que ela trilhou de coração. Isso transparecia e provocava respeito.
Ficava difícil ser indiferente à ela. Seu estilo era um só: verdadeiro.
E que ninguém diga que é fácil falar de quem já morreu. Isso, ao contrário, torna-se bem difícil...
Mas ninguém pode negar o fascínio que Clara exercia, a força que dela emanava, o carisma que ela tinha. Ninguém pode esquecer sua voz privilegiada e sua postura. O corpo forte tinha momentos de imensa maleabilidade, como no clip de "Morena d’Angola"...
A voz se tornava ainda mais poderosa, como quando cantava "raiou / resplandeceu / iluminou / na barra do dia / o canto do galo ecoou".
Acho que é isso: Clara ecoava... Iluminava...
Transformá-la em santa, ainda que oficiosamente, talvez seja o maior tributo, o maior reconhecimento que o povo dá à ela.
E bem já diz o ditado: a voz do povo, é a voz de Deus. E não importa em que língua Ele se manifeste, em que fé Ele é identificado...
Na linguagem escolhida por Clara, a saudação é uma só: Saravá, Santa Clara Nunes!
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