- Coluna da Sal - Sexta-feira santa?






Sexta-feira santa...

Sexta-feira da paixão...

Feriadão quase que mundial e eu aqui, tentando entender o que fizeram com os símbolos mágicos, com os dias santos, com nossa fé...

Fico tentando imaginar como seria o mundo, se o Cristianismo se eu sofrimento institucional não tivessem dominado o planeta e a mente dos Homens...

Não sou contra a mensagem original do Cristianismo. Não sou contra a doutrina de Jesus.

Sou contra o que fizeram com ela e com ele.

Fizeram, não. Fizemos! Porque não podemos nos eximir da parcela de culpa que temos em tudo isso.

Permitimos nossa fanatização e a fanatização de quem nos rodeia.

Permitimos a transformação de uma lição de amor em pregação do sofrimento e no uso da violência para marcar os limites da diferença entre os deuses.

Permitimos que alguns poucos se dissessem iluminados e portadores da palavra dos deuses. Deixamos que dominassem nossa mente e, assim, empedernissem nossos corações.

Transformamos um sentimento genuíno em passaporte para a ignorância, criando, no mundo dos Homens, uma guerra que atribuímos ao mundo dos deuses.

Deixamos que a ambição de alguns transformasse em desgraça o destino de muitos.

E permitimos isso há séculos, há milênios!

Contamos o tempo a partir de um fato que nem ao menos conseguimos, até agora, provar ser histórico.

Permitimos que nossas vidas sejam regidas pela interpretação - particular e adequada aos interesses de uns poucos - de ensinamentos que, por si só, sem desvirtuamentos, seriam belíssimos.

Permitimos tanta deturpação, que hoje pagamos o preço da fé.

Literalmente!

São óbulos, dízimos, contribuições de toda espécie.

E nos esquecemos da vida.

Sonhamos com a vida eterna e transformamos a que temos agora em um inferno pretensiosamente redentor.

Fizemos do sofrimento a nossa marca e se dele não podemos escapar, ninguém mais escapará.

Distribuímos a dor, partilhamos o rancor, dividimos a vingança.

E tudo em nome dos deuses!

E cada um tem o seu próprio deus. Aquele que lhe dá razão, que perdoa seus pecados, que justifica seus atos.

Jogamos mártir salvador contra profeta redentor. Jogamos anjos contra santos sincretizados. Criamos a desavença entre criador e criatura.

Transformamos nossos deuses em seres horripilantes, agentes da tortura e da morte.

E os honramos com a terra alheia, com o país alheio, com a cultura alheia, com o sangue alheio...

Matamos em nome da vida eterna!

Que Sexta-feira santa é esta?

Basta olhar em volta, para descobrirmos que de santa ela nada tem. É só uma sexta-feira como tantas outras... Uma sexta-feira de intransigência e morte...